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Bolsonaro mantém política de combustíveis e culpa "ganância" da Petrobras por alta de preços




Bolsonaro concedeu entrevista a canal ligado ao agronegócio nesta segunda - Reprodução/Agromais


"A Petrobras tem uma ganância enorme, o lucro da Petrobras é exagerado, outras petrolíferas no mundo baixaram margem de lucro para ajudar seus países, a Petrobras tem aumentado a margem de lucro por ocasião das crises, e continua da mesma maneira". O discurso parece de um político ou militante de oposição, mas a fala foi do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), em entrevista concedida nesta segunda-feira ao canal AgroMais.
Ele poderia fazer mais. Chefe do governo federal, acionista majoritário da Petrobras, Bolsonaro tentou atribuir a outras pessoas e entidades a culpa alta nos preços. Citou uma série de fatores, como refinarias iniciadas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não finalizadas após a Operação Lava Jato; o Imposto sobre Circulação de Mercadoris e Serviços (ICMS); o lucro de acionistas minoritários e outros supostos motivos. Entretanto, não mencionou a política de paridade de preços com o mercado internacional, adotada durante o governo de Michel Temer (MDB) e mantida pelo governo do próprio Bolsonaro, e principal responsável pelos sucessivos aumentos nos custos.
Citando os lucros de acionistas minoritários, Bolsonaro disse que boa parte do valor está sendo direcionado a fundos de pensão de outros países, que estão entre os principais investidores da empresa. "Estamos bancando a aposentadoria de pessoas fora do Brasil com o sacrifício do povo brasileiro", afirmou, em novo momento em que a entrevista parecia ser, na verdade, de alguém pronto para criticar as políticas governamentais e não o próprio responsável por elas.
"Eu não tenho participação no aumento de preços de combustíveis", disse erroneamente o presidente. A fala beirou surealismo, já que o governo indica a maioria dos integrantes do conselho da estatal – o conselho é a instância responsável pelas principais decisões internas na empresa, e isso inclui a política de preços.
Ao dizer que está fazendo "o possível" para conter a alta nos preços, Bolsonaro voltou a tentar culpar os governadores estaduais pela alta nos preços dos combustíveis, e disse que, antes dele, "quase ninguém" sabia a composição dos preços dos combustíveis (sobre os quais incidem impostos estaduais e federais).

Privatização "dificilmente vai pra frente"

Em uma das cartadas mais recentes para tentar mudar o rumo das pesquisas eleitorais, que mostram que ele está em enorme desvantagem em relação a Lula, Bolsonaro deu aval para estudos para privatização da estatal. Porém, durante a entrevista desta segunda, o próprio presidente reconheceu que essa possibilidade é remota.
"Estamos tentando mudar. Mudou o ministro das Minas e Energia, que quer mudar agora também toda a Petrobras, mas há uma dificuldade, reunião de conselhos, burocracia enorme", disse. "Conversei com o ministro de Minas e Energia. Dificilmente vai pra frente, correndo tudo certo duraria uns quatro anos", complementou.

Entrevista para canal ligado ao agronegócio

O AgroMais, canal que exibiu a entrevista desta segunda, é um canal pertencente ao grupo Bandeirantes. Como o próprio nome dá a entender, está pronto para defender os interesses do agronegócio. À vontade e com uma "cola" na mão (dias depois de defender a ideia de debates eleitorais com "perguntas combinadas"), o presidente aproveitou para defender a exploração mineral em terras indígenas e atacar os direitos dos povos originários.

"Não demarquei terra indígena, aquilombola, APA [Área de Proteção Ambiental], nada", contou, orgulhoso.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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