No primeiro dia autorizado pelo calendário eleitoral, governador reúne multidão na Praça do Feijão ao lado de Geraldo Júnior, Jaques Wagner e Rui Costa e apresenta ao Centro-Norte baiano uma agenda de rodovia, aeroporto e saúde.
Havia doze horas que a comitiva governista atravessava a Bahia de ponta a ponta quando a Praça do Feijão começou a encher. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) escolheu Irecê, a 478 quilômetros de Salvador, para oferecer à campanha de reeleição a sua primeira demonstração de força fora da capital, e o saldo, na estimativa divulgada pela organização do ato, foi um público superior a 20 mil pessoas, número que credencia a concentração de domingo (16) entre os maiores atos políticos já realizados no município.
A jornada começara ao amanhecer, na Colina Sagrada. Às sete horas, o candidato à reeleição participou de missa na Basílica Santuário do Senhor do Bonfim e, na sequência, caminhou pelo largo ao lado da chapa majoritária, entre militantes e lideranças da capital. O roteiro que emenda o mais reconhecível símbolo religioso de Salvador ao coração do Centro-Norte baiano não resultou do acaso. Domingo era o primeiro dia em que a Lei nº 9.504/1997 autoriza comícios, carreatas e pedido explícito de voto, e a campanha governista fez questão de inaugurar o calendário exibindo capital e interior na mesma agenda, como quem antecipa a geografia que pretende percorrer até outubro.
Em Irecê, Jerônimo subiu ao palanque acompanhado do vice-governador Geraldo Júnior (MDB) e dos candidatos ao Senado Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT). A presença simultânea de dois ex-governadores no mesmo palanque, diante de prefeitos, vereadores e caravanas vindas de municípios do território, produziu a imagem que o grupo governista quer fixar desde a largada: a de uma chapa coesa, com trânsito consolidado no interior e capacidade de mobilizar público em praça aberta. Do microfone, o governador atribuiu ao território o tom da caminhada que se inicia e agradeceu a quem veio de longe. “O território botou mais de 20 mil pessoas na rua”, afirmou.
A Estrada do Feijão no centro da agenda
Entre os compromissos apresentados na praça, nenhum encontra ressonância tão imediata na economia local quanto a duplicação da BA-052 no trecho que liga Irecê ao acesso a São Gabriel. Conhecida como Estrada do Feijão, a rodovia é o eixo por onde escoa a produção agrícola de uma das regiões mais produtivas do semiárido baiano e por onde circulam, diariamente, moradores de dezenas de municípios que gravitam em torno do polo. Duplicá-la significa reduzir o tempo de viagem, ampliar a segurança viária e desafogar um corredor que há anos convive com fluxo incompatível com a pista simples.
Ao inscrever a obra entre as prioridades anunciadas logo no primeiro ato do interior, o governador sinalizou o lugar que a infraestrutura regional deve ocupar em um eventual novo mandato. A promessa dialoga com uma reivindicação antiga do território, formulada por produtores, transportadores e prefeituras, e converte em pauta de campanha aquilo que a região vinha tratando como gargalo estrutural.
Na mesma linha, Jerônimo assumiu o compromisso de ampliar e modernizar o Aeroporto de Irecê. A estrutura aeroportuária é peça central para quem pretende consolidar a cidade como entroncamento de negócios do Centro-Norte, porquanto encurta distâncias que a malha rodoviária ainda impõe, facilita o deslocamento de empresários e profissionais de saúde e abre caminho para a atração de investimentos que costumam medir viabilidade em horas de viagem. Para um território que se acostumou a depender de Salvador e de Feira de Santana para conexões, a modernização do aeroporto carrega significado que ultrapassa a obra em si.
Saúde regional e o peso de um polo
A segunda frente de anúncios tratou da saúde, e não por outro motivo: Irecê já funciona como referência assistencial para uma população que extrapola em muito os seus próprios limites municipais. O governador apresentou o compromisso de implantar o Hemocentro Regional, fortalecendo a estrutura hemoterápica do território, além de um Laboratório Municipal de Referência Regional e novas Unidades Básicas de Saúde.
O conjunto atende a uma lógica de regionalização que vem orientando a política de saúde do Estado, segundo a qual serviços de média complexidade devem ser ofertados onde a demanda se concentra, poupando o paciente do deslocamento à capital. Um hemocentro instalado no polo altera a rotina de hospitais de toda a região; um laboratório de referência encurta prazos de diagnóstico que hoje dependem de coleta, transporte e espera. São medidas cujo efeito se mede menos em inaugurações e mais na capacidade cotidiana de atendimento.
Educação e saneamento completaram o pacote apresentado ao território, compondo uma agenda que combina obra estruturante com serviço público de porta aberta, fórmula que a campanha governista pretende repetir nas demais regiões do Estado.
O interior como eixo do projeto
A escolha de Irecê para o primeiro comício não se explica apenas pela capacidade de mobilização demonstrada na praça. Eleito em 2022 no segundo turno, Jerônimo construiu no interior a base que o levou ao Palácio de Ondina, e é ali que sua campanha pretende consolidar vantagem antes de disputar voto a voto nos grandes colégios eleitorais. Abrir a caminhada no Centro-Norte, com agenda de investimentos anunciada diante de prefeitos e vereadores da região, é uma forma de dizer que o interior não será tratado como retaguarda, e sim como eixo do projeto que se apresenta ao eleitor.
Some-se a isso o vínculo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evocado do palanque e correspondido pelo público em manifestações de apoio ao longo do ato. A chapa que se apresenta como Time de Lula na Bahia aposta na soma entre a liderança nacional do presidente, o capital político acumulado por Wagner e Rui Costa em doze anos de governo estadual e a agenda territorial que Jerônimo vem construindo desde 2023. Em Irecê, essa aritmética ganhou as ruas.
Restaram da tarde de domingo duas imagens que a campanha levará adiante. Uma delas é a praça tomada, sinal de que a máquina de mobilização do grupo governista responde ao chamado mesmo a quase quinhentos quilômetros da capital. A outra é a agenda de compromissos, que coloca rodovia, aeroporto, saúde, educação e saneamento no horizonte de um território que raramente ocupou, ao mesmo tempo, tantas linhas do discurso eleitoral. Irecê deu a largada, e o fez indicando o terreno em que o governador pretende disputar a reeleição.
Jerbson Moraes é advogado, mestrando em Direito e assina as colunas Poder & Política e Justiça & Direito em Manejo Notícias.

