Reeleito com a maior votação da história da cidade, o prefeito Augusto Castro (PSD) aposta na pré-candidatura da mulher, Andrea, para converter força municipal em representação estadual. A jogada reabre uma pergunta antiga do Sul da Bahia: por que a região que produz riqueza quase nunca a traduz em poder.
Em 2020, às vésperas de disputar pela segunda vez a Prefeitura de Itabuna, Augusto Castro passou semanas numa UTI, vencido temporariamente pela mesma covid-19 que paralisava o país. Quando deixou o hospital, levava de volta à campanha algo que nenhuma pesquisa mede: a condição de quem havia sobrevivido ao que tantos eleitores viviam de perto. Foi esse o ponto de virada de sua trajetória. Até ali, era um administrador experiente em busca de um cargo que já lhe escapara uma vez; dali em diante, passou a encarnar um trauma coletivo. A doença que o derrubou era a mesma que tirava o sono de cada família itabunense, e a sua recuperação dialogou, sem que precisasse dizer uma palavra, com o medo de uma cidade inteira. A covid deixou de ser episódio clínico para se tornar marco simbólico: o instante em que a biografia de um candidato deixou de ser individual e ganhou contornos de representação popular.
Convém recuar um pouco. Augusto Castro não chegou ao poder por atalho. Natural de Ibicaraí, começou aos treze anos como menor aprendiz na própria Prefeitura de Itabuna e foi somando devagar a experiência administrativa que faltava a boa parte de seus futuros adversários: assessor na Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado, secretário parlamentar na Assembleia Legislativa, dois mandatos de deputado estadual entre 2011 e 2018. Nesse percurso, envolveu-se nos debates que moldaram a agenda econômica do Sul baiano nas últimas décadas, do Porto Sul à Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Tentou a prefeitura em 2016 e perdeu. Só em 2020, já com a internação para trás, completou a travessia.
A reeleição de 2024 deu a essa caminhada um significado que ultrapassa o número. Com 65.329 votos, quase 59% dos válidos, Castro tornou-se o primeiro prefeito reeleito na história de Itabuna, façanha que nenhum dos grupos tradicionais da cidade, acostumados a décadas de alternância e de rivalidade entre oligarquias locais, havia conseguido. O eleitorado não apenas referendou uma gestão; rompeu um padrão que parecia imutável. E grupos políticos que rompem padrões raramente se contentam em administrar o que já têm.
É aí que entra Andrea Castro. O caminho da primeira-dama à urna está entre os mais batidos da política brasileira, e seria desonesto vendê-lo como ineditismo. O que distingue o caso de Andrea é o currículo que sustenta a candidatura para além do casamento. Advogada de formação, comandou em Itabuna a Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza, pasta que a colocou no centro das políticas de assistência e de proteção às famílias mais vulneráveis.
A candidatura, contudo, só ganha real dimensão quando deixa de ser lida como mero projeto familiar. O Sul da Bahia, como quase todo o interior brasileiro, elege pouquíssimas mulheres para a Assembleia, e o PSD transformou esse déficit em bandeira pragmática: o presidente estadual da legenda, senador Otto Alencar, associa abertamente a aposta em Andrea ao reforço da participação feminina num partido cuja bancada inclui a atual presidente da Assembleia Legislativa. Há nisso um cálculo eleitoral evidente, mas também o reconhecimento de um vácuo real. Uma eventual vitória não reforçaria apenas a representação de Itabuna; ajudaria a reduzir a sub-representação histórica das mulheres do interior num parlamento ainda predominantemente masculino e litorâneo. Permanece de pé, claro, a pergunta legítima sobre quanto dessa força é dela e quanto é herdado da figura do marido, que só as urnas poderão responder.
O que torna o movimento mais relevante do que um arranjo de bastidores é o lugar que ele ocupa no tabuleiro estadual. A pré-candidatura de Andrea nasceu com o aval do próprio Otto Alencar e recebeu elogio público do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Não é gesto protocolar. O grupo de Itabuna posiciona-se com nitidez no campo governista, ao lado da base que tentará reeleger Jerônimo em 2026, e não na oposição capitaneada por ACM Neto. Para o PSD, hoje a legenda com o maior número de prefeituras da Bahia, fortalecer uma liderança no Sul do estado significa consolidar capilaridade numa região decisiva; para o governo estadual, significa somar mais um vetor de votos numa eleição que se anuncia disputada. Esse arranjo deu à pré-candidatura um favoritismo acentuado. Nos últimos meses, Andrea deixou de circular apenas por Itabuna e passou a costurar apoios em outras regiões do estado, do Recôncavo à Região Metropolitana de Salvador, agregando prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias a uma base que já contava com o palanque de um prefeito reeleito com a maior votação da história da cidade. Entra na disputa, portanto, não como aposta incerta, mas como uma das candidaturas mais competitivas do Sul do estado a uma cadeira na Assembleia.
Por baixo de tudo isso corre uma contradição que o Sul da Bahia carrega há gerações. A região produziu o cacau, moveu a economia estadual e atraiu empreendimentos de porte como o Porto Sul e a FIOL, sem jamais converter esse peso econômico em representação política proporcional na Assembleia ou no Congresso. Itabuna e Ilhéus, as duas maiores cidades, costumam exportar influência sem reter poder. A aposta de Augusto Castro pode ser lida como tentativa de corrigir a assimetria: usar a prefeitura como base, conquistar uma cadeira estadual e, a partir dela, disputar com mais força a fatia regional dos investimentos. O que está em jogo é um projeto de poder territorial, não apenas mais uma candidatura.
Há, porém, uma camada que a leitura puramente eleitoral costuma ignorar e que explica a anomalia melhor do que qualquer pesquisa. O Sul da Bahia nunca foi um bloco; foi, antes de tudo, uma rivalidade. Itabuna e Ilhéus cresceram lado a lado, separadas por pouco mais de trinta quilômetros, disputando entre si uma primazia que nenhuma das duas jamais quis dividir: a sede da comarca, o entreposto do cacau, o título de capital econômica do sul do estado. Essa competição, fértil enquanto moveu o comércio e alimentou a vaidade das oligarquias locais, mostrou-se estéril no plano da representação. Onde outras regiões da Bahia aprenderam a somar, a região cacaueira aprendeu a subtrair-se. Cada eleição reencena o mesmo enredo: as duas cidades lançam seus próprios nomes, repartem um eleitorado que poderia ser comum e terminam por anular-se na conta final. O saldo é uma sucessão de candidaturas medianas que orbitam um teto que nenhuma rompe, no lugar da liderança única capaz de concentrar a força de toda a microrregião e fazê-la pesar em Salvador.
Daí a originalidade — e também o risco — do gesto de Augusto Castro. Ao projetar Andrea para a Assembleia, ele não busca apenas eleger mais um nome; busca, talvez sem formulá-lo nesses termos, romper com a lógica que há gerações condena o Sul da Bahia à pulverização. A bancada regional robusta nunca se formou, e não foi por falta de eleitores ou de riqueza, de que a região sempre dispôs com sobra, mas por falta de quem abrisse mão da disputa de campanário em nome de um projeto comum. O cacau encheu os cofres do estado e ergueu palacetes, mas não ensinou as elites locais a agir como bloco; ensinou-as, ao contrário, a competir pela liderança de um território que, somado, teria peso, e, dividido, produz apenas ruído. A pergunta que paira sobre 2026 é, no fundo, se Ilhéus e as demais cidades da microrregião enxergarão na candidatura itabunense um adversário a derrotar, repetindo o roteiro de sempre, ou um eixo em torno do qual, pela primeira vez, valha a pena coordenar-se. Da resposta dependerá menos a sorte pessoal de Andrea Castro do que a possibilidade, ainda inédita, de o Sul da Bahia falar em Salvador com uma só voz.
O favoritismo, no entanto, não dispensa o teste que toda liderança forte cedo ou tarde enfrenta: capital político não se transfere por decreto. A história recente da Bahia está povoada de prefeitos bem avaliados que viram o próprio prestígio evaporar ao tentar repassá-lo a um nome próximo, porque o voto em quem governa nem sempre acompanha o indicado. A votação expressiva de Augusto em Itabuna não garante, por si só, uma cadeira para Andrea em Salvador.
Talvez seja esse o verdadeiro objeto em disputa em 2026, maior do que a cadeira em jogo e do que o nome que a ocupará. Andrea Castro entra favorita, e a aritmética lhe é amplamente favorável; mas favoritismo, no Sul da Bahia, sempre foi mercadoria perecível, dissolvida tantas vezes na velha tentação de cada cidade preferir a própria derrota à vitória da vizinha. Se a microrregião repetir o roteiro de sempre, Ilhéus contra Itabuna, cada qual zelosa de um protagonismo que, isolado, não pesa, a eleição apenas reproduzirá a anomalia que esta coluna procurou descrever, e o cacau seguirá financiando um poder que se decide alhures. Se, ao contrário, enxergar na candidatura um eixo, e não um inimigo, talvez 2026 fique na memória como o ano em que a região, enfim, parou de subtrair-se. Entre uma hipótese e outra corre toda a distância que separa uma boa campanha de um projeto histórico, e é nessa distância, não nas pesquisas, que se medirá o tamanho real da aposta de Augusto Castro.
