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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A política que veio do povo: por que a Bahia escolheu ser governada por quem a conhece por dentro

Da roça ao Palácio de Ondina, da fábrica ao Planalto: a força política das biografias que se confundem com a história da maioria dos baianos.



Há uma pergunta que a ciência política brasileira raramente enfrenta com a profundidade que merece: de onde vêm os que nos governam? Não de qual partido nem de qual ideologia, mas de qual casa, de qual mesa, de qual infância. Na Bahia, a resposta a essa pergunta ajuda a compreender mais sobre as últimas duas décadas da vida política do estado do que muitas análises de conjuntura.
O grupo político que governa a Bahia desde 2007 não nasceu nos salões. Nasceu na roça, na fábrica, na escola pública e no sindicato. E isso está longe de ser um detalhe biográfico: é parte essencial do fenômeno. Em um estado historicamente marcado por oligarquias familiares, onde o poder costumava atravessar gerações como herança, transmitido junto com sobrenomes, propriedades, emissoras e estruturas políticas consolidadas, a ascensão de lideranças vindas das camadas populares representou uma ruptura cuja dimensão eleitoral ainda parece subestimada por seus adversários.

O retirante que chegou ao Planalto

Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se o símbolo maior dessa narrativa. Filho de lavradores pobres do agreste pernambucano, percorreu o caminho que milhões de nordestinos conhecem de cor: a seca, a migração, a viagem em pau de arara, o trabalho infantil, a oficina mecânica, a fábrica e a luta sindical. Quando o eleitor do interior baiano olha para Lula, não vê apenas um presidente da República. Vê o pai que precisou migrar para sobreviver, o irmão que foi tentar a vida em São Paulo, a própria história de dificuldade e superação. Programas sociais geram aprovação, mas a identificação biográfica produz algo mais profundo, que é o sentimento de pertencimento.

O filho do metalúrgico que governou a Bahia

Rui Costa reproduz, em escala baiana, uma trajetória semelhante de ascensão social. Filho de um metalúrgico e de uma dona de casa, criado em bairros populares de Salvador, aluno da rede pública e técnico industrial antes de ingressar na vida pública, construiu sua carreira longe dos círculos tradicionais do poder, formado no ambiente operário e na realidade cotidiana da classe trabalhadora urbana. Por isso, quando exercia o governo do estado, sua relação com as periferias de Salvador não parecia a de um visitante em território desconhecido, e sim a de alguém que conhecia aquela realidade por experiência própria. Essa familiaridade não se fabrica em gabinete nem em campanha. Ela nasce da vivência.

O menino de Aiquara que chegou ao Palácio de Ondina

Se Rui representa a Bahia urbana popular, Jerônimo Rodrigues simboliza a Bahia rural profunda. Filho do agricultor familiar Zeferino Rodrigues e da costureira Maria Cerqueira, criado em uma família numerosa na zona rural de Aiquara, percorreu um caminho improvável até o governo do estado: da agricultura familiar à escola pública, da escola à universidade, do magistério à administração estadual e, por fim, ao Palácio de Ondina. Sua trajetória sintetiza uma das maiores promessas da democracia brasileira, a de que a educação pública funcione como instrumento real de mobilidade social. Sua origem no interior e sua identidade social, além disso, aproximam sua imagem daquela que é a composição majoritária do povo baiano.

O sindicalista que virou liderança de estado

Mesmo Jaques Wagner, cuja origem possui características distintas, construiu sua legitimidade política longe dos ambientes tradicionais das elites. Foi na atividade sindical, ao lado dos trabalhadores do Polo Petroquímico de Camaçari, que consolidou sua liderança. Antes de ser eleito para qualquer cargo público, Wagner foi escolhido pelos próprios trabalhadores para representá-los. Sua autoridade política nasceu de baixo para cima, e há uma distância considerável entre conquistar liderança junto a uma categoria de trabalhadores e herdar capital político já consolidado.

Quando a biografia vira projeto político

A permanência desse grupo no comando da Bahia não se explica apenas por alianças partidárias, estruturas administrativas ou programas de governo. Existe um componente mais profundo: o eleitor reconhece nesses líderes elementos da própria trajetória. A teoria política chama esse fenômeno de representação descritiva, a percepção de que quem governa compartilha experiências, desafios e referências semelhantes às daqueles que são governados.
Em um estado majoritariamente negro, marcado pela força do interior, da agricultura familiar, da escola pública e do trabalho popular, a biografia dos governantes deixou de ser detalhe e passou a integrar a própria identidade do projeto político. De um lado estão trajetórias construídas degrau por degrau. Do outro, trajetórias frequentemente associadas à herança de estruturas de poder já estabelecidas. Não cabe aqui demonizar origens nem glorificar dificuldades, e sim reconhecer que o eleitor percebe diferenças que nem sempre aparecem nos discursos.

O espelho e o voto

Talvez essa seja a principal lição da experiência baiana. Em uma época marcada pela crescente distância entre representantes e representados, a política recupera parte de sua legitimidade quando o povo consegue enxergar algo de si mesmo em quem ocupa os espaços de poder. Lula no Planalto, Rui Costa no governo da Bahia e depois nos ministérios, Jerônimo Rodrigues no Palácio de Ondina e Jaques Wagner no Senado representam, antes de lideranças de um mesmo campo político, trajetórias que dialogam com a experiência cotidiana de milhões de brasileiros vindos da roça, da periferia, da escola pública, do trabalho duro e da luta por oportunidades.
A pergunta que acompanha cada eleição continua sendo a mesma: quem conhece a minha vida? Quem sabe de onde eu vim? Quem compreende os desafios que enfrento não por ouvir falar, mas porque também os enfrentou? Governar exige competência, equipe, planejamento e capacidade de gestão. Existe, porém, algo que antecede tudo isso: a legitimidade que nasce da identificação, a confiança construída quando o cidadão percebe que quem ocupa o poder não observa sua realidade de longe, pela janela de um gabinete, e sim a conhece por experiência própria.
Talvez seja por isso que a Bahia tenha escolhido, ao longo das últimas duas décadas, ser governada por lideranças cujas histórias começam muito antes da política, na roça, na fábrica, na escola pública e no sindicato. São histórias que lembram ao eleitor que, em uma democracia verdadeira, o poder não precisa ser uma herança: pode ser também uma conquista. E quando isso acontece, o povo deixa de ser apenas governado e passa a se reconhecer em quem governa.

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